Tracei 2 perfis para elaborar uma análise sobre o Focus e a Ford. Um é o do cara extremamente seguro de si, nem tão bonito, mas tão certo de seu potencial, de seu carisma e seu charme que, naturalmente, conquista todas as meninas ao seu redor e, por ser um cara agradável, acaba firmando esta imagem junto a todos os que o rodeiam. O outro é o do cara mais seguro de si do que deveria, que se ama tanto e tem uma imagem tão positiva a seu próprio respeito que não faz questão sequer de arrumar uma namorada, ele mesmo se auto-elogiando para todos, afirmando repetidamente suas qualidades e se tornando uma pessoa desagradável por seu narcisismo. O primeiro cara é o Focus. O segundo é a Ford.
O texto sobre o Novo Focus acaba de ganhar o título de reportagem mais difícil de ser feita pelo Racionauto. Isso porque a Ford parece não fazer questão de que o consumidor conheça o carro. Desde o lançamento da nova versão, quando somente o motor 2.0 era disponibilizado, procurei o carro em todas as concessionárias onde pude e, das duas, uma: ou não havia o carro para test-drive ou os vendedores não faziam questão alguma de me atender. Acabei conseguindo testar a nova versão 1.6 Sigma, mas somente numa cidade do interior de Goiás – e isso graças ao auxílio de um conhecido que lá trabalha.
A versão 2.0 sempre foi muito elogiada por suas qualidades dinâmicas. Bem, o Novo Focus 1.6 consegue surpreender também pelo bom custo x benefício. Se analisarmos a versão GLX mais completa, que sai por R$ 52.400,00, vemos que ela não cobra tanto pelo que oferece: ar, vidros elétricos nas 4 portas com one-touch para todos, travas elétricas, alarme, retrovisores elétricos, direção hidráulica, faróis com ajuste de altura, airbag duplo, ABS com EBD, CD player com MP3 e USB, computador de bordo, rodas de liga leve com aro 16 e volante revestido em couro. Traz praticamente tudo o que o consumidor espera de um carro deste nível. O interior é bastante arejado e agradável, com bons materiais no painel (e, infelizmente, nem tanto nas portas e nos bancos – mas nada é perfeito) e bastante espaço na frente e atrás. O portamalas é pequeno, com apenas 328 litros de capacidade, mas os bancos traseiros bipartidos podem facilitar a vida de quem precisa, eventualmente, de mais espaço.
Falar da posição de dirigir praticamente perfeita (até para pessoas mais altas), da ótima suspensão e do câmbio de engates macios, rápidos e precisos seria chover no molhado. O Focus é daqueles carros que agrada tanto a quem gosta de dirigir quanto a quem dirige por pura necessidade. Na estrada, ele é silencioso, equilibrado e estável; na cidade ele filtra muito bem as imperfeições do asfalto e é ótimo de manobrar. O que faltava analisar é a disposição do novo motor 1.6 Sigma, com números de potência e torque muito próximos aos do Zetec Rocam: de 109,3 a 115,6 cv de potência, com torque de 15,4 a 16,3 kgfm a 4.250 rpm contra 105/113 cv e 15,1 a 16 kgfm, na mesma rotação. A maior diferença está na forma como ele atua.
Por ter 16 válvulas e ser construído totalmente em alumínio, confesso que criei uma certa expectativa de que o 1.6 Sigma poderia funcionar como o antigo 1.8 16v Zetec importado da Inglaterra e que equipava os antigos Escort. Ledo engano: em vez de áspero, ele é extremamente suave, e em vez de lerdo em baixas rotações, já a 1.500 rpm ele entrega cerca de 80% do torque, o que se traduz em bastante esperteza nas situações mais diversas. Andando a maior parte do tempo em velocidade reduzida no test-drive, ainda assim ele se mostrou bastante agradável e a sobra de força do motor ficou nítida no pequeno trecho de estrada que pegamos, com acelerações bastante lineares. O Fiesta 1.6 Zetec Rocam, quando testado, se mostrou mais nervoso, mas não era tão linear nem tão suave.
Por fim, o Novo Focus é bonito, muito bonito. Mais largo que todos os seus concorrentes (1,84 m), ele é imponente e seu design, exatamente igual ao do modelo vendido na Europa, gera uma ótima sensação cosmopolita ao condutor. Mesmo parecendo que não há racionalidade numa análise de design, pense que, por ser novidade, ele não vai mudar tão cedo e isso por si já traz uma vantagem imensa quando seus proprietários resolverem vendê-lo.
Criticar o Novo Focus é tarefa difícil, especialmente quando a imprensa especializada o elogia tanto. Mas o paradoxo está justamente nisso: um carro tão bom não conseguir emplacar nas vendas. Fica fácil, porém, entender um dos principais motivos: a falta de preparo da rede autorizada. Ninguém gosta de ser maltratado, especialmente quando pretende desembolsar uma quantia considerável para comprar um carro.











