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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

NA PONTA DO LÁPIS




















Volkswagen Fox

Se fôssemos separar os consumidores de carros por categorias, acredito que seria possível estabelecer pelo menos 3: a dos que compram por diversão (analisam desempenho, dirigibilidade e design, às vezes preferindo um usado mais equipado e potente), a dos que compram pensando em investimento (o que importa é o valor de compra, a liquidez e a desvalorização, e por isso geralmente compram carros queridos pelo mercado) e a dos que compram por necessidade (seus critérios são custo x benefício, consumo e custo de manutenção, pouco importando beleza e desempenho).
















Chevrolet Agile

Claro, é muito difícil encontrar alguém que se encaixe somente numa categoria; mesmo tendendo a esta, sempre temos algo daquela. Mas é interessante notar que a maioria dos consumidores brasileiros, não importa em que categoria se encaixem, sempre denotam preocupação com o custo de manutenção. Afinal, nossa realidade financeira não é semelhante à européia, nenhum brasileiro gosta de jogar dinheiro fora e não há experiência pior (para o bolso, principalmente) do que descobrir que você adquiriu um carro-problema.

Pensando nisso, o Racionauto propõe (por sugestão do "racionauta" Fábio dos Reis) um comparativo diferente. Juntos aqui estão 7 modelos que concorrem no segmento de hatches pequenos “semi-premium”, digamos assim: Chevrolet Agile 1.4, novo VW Fox 1.6, Ford Fiesta Hatch 1.6, Fiat Punto 1.4, Citroën C3 1.4, Renault Sandero 1.6 8v e – na falta de um representante de iguais medidas – Peugeot 207 1.4. As versões de acabamento foram desconsideradas, já que os valores são iguais para modelos básicos ou completos. O desafio é estabelecer, com base em dados fornecidos por concessionárias da Grande São Paulo, um quadro dos gastos com a manutenção de cada um deles e, assim, tentar encontrar um vencedor.

















Citroën C3

Quando alguém compra um carro zerinho, uma das primeiras coisas que lhe vem à cabeça é o custo de revisões. Bom é saber que você pode andar bastante sem se preocupar, mas ruim na mesma medida é saber que isso pode ter um custo alto ao final de um período de tempo ou de certa distância percorrida. Neste caso, o Renault Sandero acaba saindo na frente, cobrando apenas R$ 642,00 para as 3 primeiras revisões, realizadas com 10, 20 e 30 mil quilômetros. Já em segundo lugar, pelo valor das revisões, ficaria o Ford Fiesta – R$ 672,00. O problema é que estas podem ocorrer muito cedo, já que a Ford obriga o consumidor a trazer seu carro na oficina OU aos 10 mil quilômetros OU aos 6 meses de uso, o que chegar primeiro – mesma recomendação, aliás, da Chevrolet e da VW. Em terceiro lugar fica o 207, com R$ 864,00 de custo total para as 3 primeiras revisões. Em seguida temos o Fiat Punto (R$ 948,00) e o Citroën C3 (R$ 1.185,00, quase o dobro do custo de revisões do Renault), com vantagem ainda maior para o Fiat pelo grande intervalo entre revisões (15, 30 e 45 mil quilômetros).















Ford Fiesta

E quanto ao Agile e ao Fox? Bem, a VW simplesmente assume que os valores de revisões não são fixos e, por isso, cada concessionária adota a política de preços que lhe parecer melhor. Ainda assim, consegui o valor de R$ 165,00 (somente abaixo de Peugeot e Citroën) para a primeira revisão do Fox 1.6, que deve acontecer aos 10 mil km ou 6 meses. Já o caso do Agile foi mais curioso. Depois de visitar 4 concessionárias e ligar para outras 7 em vão, cheguei à conclusão que a GM considera o valor das revisões do Agile um segredo que só deve ser revelado a quem o comprar. Numa das lojas, inclusive, a atendente estranhou meu pedido a ponto de dizer que chamaria o gerente para conversar comigo. Dispensei. A única pessoa que se dispôs a me dar alguma informação foi um dos mecânicos de uma concessionária no Ipiranga: disse ele o custo é, geralmente, de R$ 110,00 a R$ 140,00. Muito impreciso.















Peugeot 207

Porém, nem só de revisões vive um carro. Mesmo o mais resistente deles pode ter algum probleminha, talvez sofrer os males de ser abastecido com combustível adulterado, ou ter um amortecedor danificado por um buraco na via ou ainda sofrer desgaste precoce de pastilhas de freio – sem falar nos pequenos acidentes de trânsito. Assim, cotando o preço de uma cesta de peças com 6 itens (farol, pára-choque traseiro, retrovisor esquerdo, jogo de velas, amortecedor dianteiro e jogo de pastilhas de freio dianteiras) para cada modelo, descobrimos ainda mais surpresas.

A primeira delas ficou por conta do novo Fox. Recém lançado e ainda sem tabela de preços de peças novas, ficou muito difícil conseguir um valor total para a cesta dele. Mas os preços obtidos de peças comuns aos modelos antigo e novo – amortecedor, velas e pastilhas de freio – revelaram que não importa quanto tempo um modelo permaneça no mercado; nem sempre suas peças adquirem preços acessíveis. O amortecedor mais caro foi o dele (R$ 273,70), bem como o jogo de velas (R$ 85,68). Dá medo pensar que o novo pára-choque traseiro, um retrovisor maior e com pisca integrado, e ainda os faróis novos e maiores, podem acabar chegando com preços mais altos do que os praticados hoje.

















Fiat Punto

Boa notícia: o carro com preços secretos de revisões se mostrou extremamente frugal em relação ao valor de sua cesta básica, obtendo o primeiro lugar dentre todos: R$ 1.139,91 (farol, pára-choque traseiro, retrovisor e pastilhas de freio mais baratas). Em seguida, com preço um pouco superior mas ainda em patamar semelhante, vem o Punto, com valor total de peças de R$ 1.372,00. Daí pra frente o negócio desembesta, com valores que superam os R$ 1.600: Peugeot 207 (R$ 1.616,00), Renault Sandero (R$ 1.635,44), Ford Fiesta (R$ 1.722,00) e Citroën C3 (R$ 1.788,00).

Mas o que surpreende – de maneira positiva ou negativa – não é necessariamente o valor total da cesta, mas o valor separado de algumas peças. É elogiável o valor de R$ 100,00 pelo jogo de pastilhas de freio do Agile (embora o consultor tenha afirmado serem as mesmas do Celta), bem como os poucos R$ 49,76 pelo jogo de velas do C3 e os R$ 144,90 pelo amortecedor do Fiesta. Entretanto, estes últimos perdem toda a vantagem quando cotamos o valor de R$ 506,30 pelo farol do C3 e os absurdos R$ 734,00 pelo pára-choque traseiro do Fiesta. Nem o Sandero, aliás, escapa da retaliação: concebido para ser um modelo de baixo custo, ele tem (com exceção do Fox, cujo preço não foi possível cotar) o retrovisor mais caro de todos: R$ 280,00.















Renault Sandero

Ainda assim, o valor um pouco alto no preço das peças não é capaz de roubar do Renault Sandero o troféu deste comparativo. Colocando tudo na ponta do lápis, percebe-se que os 3 anos de garantia, aqui, fazem toda a diferença. Ele compensa o preço das peças proporcionando ao usuário a comodidade de poder contar com a garantia por muito mais tempo para quaisquer outros problemas mecânicos, elétricos ou eletrônicos, sem custo adicional. E em segundo lugar fica o Fiat Punto: apesar de ter o preço total de revisões somente menor que o do C3, sua maior vantagem está no grande intervalo entre revisões sem a obrigatoriedade da visita à oficina por prazo, e ainda no preço reduzido de peças.

Três modelos dividem um empate técnico. Cada um apresenta vantagens e desvantagens. O Agile assusta por não ter preço fixo de revisões, mas o baixo valor de suas peças faz valer a pena o negócio. O Fiesta, por outro lado, tem baixo valor de revisões, mas o condutor precisa dirigir com muita calma para evitar colisões e a consequente troca de peças caras. Já o 207, intermediário em preço de revisões e peças, tem a vantagem das revisões somente por quilometragem, podendo o usuário manter seu hábito de utilizar o carro somente para ir à padaria sem ter que arcar com o custo de uma revisão aos 2 mil km.

Em último lugar ficam C3 e Fox. O Citroën, obviamente, pelo alto custo de peças e revisões. E o Fox por deixar o consumidor na dúvida: ele se tornou um carro muito bom, tendo corrigido vários erros do modelo anterior. Mas ninguém gosta de comprar um carro às cegas. E se todas essas qualidades cobrarem um preço muito alto?

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

FIAT LINEA HLX DUALOGIC




O Fiat Linea é um paradoxo. Claro, ele não é o único no mercado nacional; na própria Fiat ele tem uma companheira, a Strada Cabine Dupla. O caso dela, que quer ser 2 coisas (automóvel e picape) e não consegue ser nenhuma, não deixa de ser curioso. E só para citar outro caso curioso, vamos nos lembrar do Honda City, o pequeno que quer ser médio.



















As contradições do Linea, porém, parecem ser um pouco mais sérias. Lançado como sedã médio, ele não foi bem aceito e se tornou pivô da discórdia entre entusiastas da Fiat – felizes e animados com o lançamento – e conhecedores do mercado – que não entendiam como um sedã derivado de um hatch pequeno um pouco anabolizado poderia ser considerado um carro médio. Depois, temendo um destino semelhante ao do Marea (que caiu no ostracismo), a Fiat lançou uma versão mais despojada e o reposicionou no mercado, o que acabou gerando resultados bem mais positivos em vendas. Mesmo assim, isso não resolveu um dos maiores dilemas que cercam o modelo: ser um carro com comprimento e distância entreeixos de sedã médio, mas com espaço interno de hatch premium e motorização com pouca tecnologia, típica de hatch médio de entrada.

Isso nos faz pensar sobre os motivos que levam uma pessoa a comprar um Linea. Sabe-se que compradores de sedãs premium ou médios levam muitíssimo em consideração pelo menos 5 aspectos: itens de série, design, desempenho, tecnologia e espaço. Mas com tantos sedãs bem definidos em sua proposta e posicionamento no mercado, qualidade reconhecida e custo x benefício semelhante (ou até melhor), por que alguém escolheria um, digamos, “Punto Sedã alongado”?

Itens de série






















Analisando pontualmente a versão mais vendida (segundo a Fiat), a HLX Dualogic, já encontramos o primeiro (bom) motivo: muitos itens de série por preço atraente. É bom lembrar que a Fiat reposicionou o Linea no mercado e isso faz com que esperemos mais de um carro de R$ 61.816,00 (com pintura metálica). E o Linea não decepciona: ar condicionado, direção hidráulica, trio elétrico (com acionamento elétricos dos vidros para as 4 portas), airbag duplo, freios a disco nas 4 rodas com ABS, rodas de alumínio, abertura interna do portamalas, CD player com MP3, volante revestido em couro com ajuste de altura e profundidade e comandos do rádio, câmbio dualogic, chave-canivete com controle para abertura de portas, vidros e portamalas, computador de bordo, piloto automático e porta-óculos. Sim, existe uma versão mais em conta (R$ 55.430,00), mas que também vem recheada: exclua da versão acima somente as rodas de alumínio, o ABS e o câmbio dualogic, essencialmente.

Design




















Também pode ser um bom chamariz para o comprador. Por ser derivado do Punto, o Linea aproveitou um pouco de suas belas linhas, mas com detalhes que imprimem identidade própria ao modelo com um resultado muito bom. Sóbrio e dinâmico ao mesmo tempo, tem cromados na quantidade e no lugar certo, e a dianteira, diferenciada em relação ao Punto, conversa muito bem com a traseira – com destaque para as lanternas, de desenho harmonioso e muito bonito. Por dentro, o Linea também agrada com bom acabamento e materiais de boa textura, além do bonito e agradável layout do painel, especialmente à noite.

Desempenho




















Outro bom motivo de compra. O ronco do motor, grave e metálico, entusiasma e chega a lembrar, em certas rotações, um Alfa 4 cilindros. É áspero, mas não incomoda. De rodar macio e construção sólida, ele filtra bem as imperfeições do asfalto e acomoda muitíssimo bem o motorista, graças às regulagens do banco e do volante (ambos em distância e altura), que, inclusive, tem ótima pega. E ele anda bem, apesar de acelerar menos que alguns concorrentes – 11,3 segundos para ir de 0 a 100 km/h e retomada de 80 a 120 km/h em 8 segundos cravados, auxiliado pelo câmbio dualogic. Mas aí começam os problemas...

Em consumo, o Linea deixa a dever: média de 5,8 km/l na cidade e de 8,2 km/l na estrada, com álcool. Além disso, o câmbio dualogic não ajuda muito em termos de comodidade no dia-a-dia. Suportar os trancos nas trocas de marchas por semanas, meses ou anos é uma coisa que requer muito amor pelo carro ou muita paciência. Querendo ou não, você olha para o câmbio e imagina que está guiando um carro automático, literalmente. Mas aí, resolve acelerar um pouco mais numa saída de sinal e... Tranco. Na estrada, se precisa ultrapassar, pisa fundo e... Tranco. Nem mesmo câmbios automáticos em carros mais antigos geravam tanto desconforto. Disse-me o vendedor que isso pode ser amenizado caso você tire o pé do pedal a cada troca de marcha, como faria com um carro com câmbio manual normal, com a única diferença de não ter que apertar um pedal de embreagem. Neste caso, porém, a proposta de conforto de um câmbio automático ou automatizado perde um pouco o sentido.

Tecnologia






















Falta de tecnologia não é um problema, se você não souber disso. Parece que é o que pensa a Fiat em relação ao Linea. Sim, os donos do carro têm um carro que roda com um propulsor 1.9 16v com bloco de ferro fundido, sem variador do comando de válvulas, de alto consumo, com potência específica mais baixa e relação entre peso e potência mais alta que a de seus concorrentes, além de uma suspensão simples; mas isso tudo eles não vêem nem sentem. Enquanto isso, contam com freios ABS, podem ter 6 airbags à disposição, equipamento de som com leitor de MP3, entrada USB e Bluetooth, navegação por GPS, sensores de estacionamento, de chuva e crepuscular – e isso tudo se vê e se sente. A máxima aplicada pela Fiat é muito lógica e faz muito bem para as vendas.

Espaço




















Neste aspecto não há como disfarçar: o Linea sofre as conseqüências de ser derivado de um carro pequeno. Mesmo comprido (4,56 m) e com entreeixos interessante (2,60 m), ele é mais estreito que seus concorrentes e tem menos espaço para a cabeça dos ocupantes do banco traseiro. Comparando-o com o Corolla, por exemplo, que tem exatamente o mesmo entreeixos, isso fica ainda mais evidente – e não deixa de ser interessante, já que o Corolla é mais baixo mas tem melhor aproveitamento interno do espaço. Mesmo na frente, onde o motorista se senta com conforto, o passageiro sofre um pouco por causa do espaço ocupado pelo console central. Quanto ao portamalas, com 500 litros declarados e articulações pantográficas (que não ocupam espaço no compartimento), não se pode reclamar do espaço: as bagagens vão bem acomodadas. Mas o vão de entrada é um pouco estreito; pais de crianças pequenas, que precisam carregar carrinhos e/ou cadeirinhas de viagem, eventualmente, podem não gostar disso.

Enfim, o Linea não é ruim. Só é pior que muitos modelos com os quais concorre. Em contrapartida, ele tem o mérito de ter atingido um público muito específico e que, surpreendentemente, é maior do que muitos poderiam supor. Um grupo de pessoas que:
- prefere VER a tecnologia do que SABER de sua existência;
- prefere QUANTIDADE à QUALIDADE;
- gosta de dirigir, mas não se preocupa muito com o conforto de quem vai junto;
- gosta da idéia de ter algo diferente dos demais (por exemplo, um carro com câmbio automatizado em vez de automático) e está disposto a arcar com as conseqüências de algum desconforto;
- não abre mão da suposta confiança em uma marca estabelecida em nosso mercado, por mais que isso possa redundar em prejuízo da qualidade.

Todos os dados de desempenho e consumo foram retirados do site Best Cars.