terça-feira, 19 de dezembro de 2017

RENAULT CAPTUR INTENSE 2.0 - AVALIAÇÃO



Fazia tempo que um carro não chamava tanto a atenção aqui no RACIONAUTO. O cara da barraca de pastel, o senhor no carro ao lado que pediu para eu abrir o vidro no semáforo, a moça no estacionamento do supermercado, todo mundo perguntando sobre o carro, elogiando o design e se esforçando pra falar o nome de forma correta. Seja bem francês nessa hora: o "t" se pronuncia meio "tch", mas com menos intensidade, e o "u" precisa ser dito com biquinho. Mas a Renault coloca acento agudo no "a", então o Captur vira Cáptchürr. Eita.



Fonéticas à parte, o Captur é bonito mesmo e essa é sua maior qualidade. Grande e alto, ele é ao mesmo tempo parrudo e refinado, arrojado e agradável. A gente não gostou muito da cor do carro avaliado, creme com teto preto, mas opções não faltam: ao todo são 4 cores para toda a carroceria ou outras 9 combinações de cores entre teto e carroceria - estas, opcionais e com custo de R$ 2.900,00, é bom lembrar. E o interior, pelo menos no que diz respeito ao design, segue o exterior em beleza. Mas aqui vai a primeira crítica: há plástico demais. As portas têm uma porçãozinha de revestimento no mesmo material dos bancos, mas é só; o resto é plástico ruim de aparência e textura. A sensação, em certos momentos, é a de estar num carro do mesmo segmento do Sandero e do Logan.


E, de certa forma, o Captur é. A plataforma usada é a do Duster, que usa plataforma adaptada do Logan. A suspensão traseira, a cremalheira, os freios e o conjunto mecânico também são do irmão mais velho. Isso traz algumas vantagens, a maior delas a robustez da suspensão. Alto, o Captur enfrenta a buraqueira da cidade e de estradas de terra com valentia e disposição sem sacrificar o conforto de ninguém, e ainda com os componentes da suspensão operando sem barulhos excessivos e sem pancadas secas, coisa rara em SUVs urbanos que mostram muito mais aparência do que eficácia. Falando em silêncio, aliás, a Renault trabalhou muito bem ao isolar a cabine dos ruídos externos, no que o Captur consegue ser bem melhor que o Duster. Mesmo na estrada, onde este Renault também se sai muito bem em retas e curvas, o carro se mantém silencioso até em acelerações e retomadas.


Outra vantagem é o espaço. Com 2,67 de entre-eixos ele acomoda bem motorista e passageiros, oferecendo cintos de segurança de 3 pontos e encostos de cabeça para todos, além de Isofix no banco traseiro e vários porta-objetos. O porta-malas comporta, segundo a fábrica, 437 litros de capacidade, com um pró e um contra: o compartimento não tem ressaltos, o que facilita muito a arrumação da carga lá dentro, mas o carro é alto e a distância entre o chão e a entrada do compartimento é grande.


Mas usando o mesmo powertrain, que, por sua vez, já é herança dos extintos Mégane, o Captur peca demais tanto em desempenho quanto em consumo. O motor tem força (148 cv e 20,9 kgfm com etanol), mas demora a subir de giro, enquanto a transmissão antiquada de somente 4 velocidades gerencia mal a força. Como o peso não ajuda (são 1.352 kg, 210 a mais que o Kicks), o resultado são acelerações e retomadas lentas, mais lentas até que as do Nissan e seu motor 1.6. E como gasta! Abastecido com etanol, no primeiro trajeto que fizemos ao retirar o carro (em São Paulo e com algum trânsito) o computador de bordo marcou pífios 3,6 km/l. E mesmo dirigindo de forma econômica, sem pisar fundo praticamente hora nenhuma e com o botão "Eco" acionado o tempo todo, não conseguimos média superior a 7,6 km/l, mesclando cidade e estrada.


A lista de itens de série não é pobre. Ar condicionado, direção eletro-hidráulica, vidros com comandos one-touch para as 4 portas, retrovisores com comandos e rebatimento elétrico, apoio de braço, chave-cartão presencial, botão de partida, sensores crepuscular e de chuva, faróis com função cornering, leds diurnos, assistente de partidas em rampas, controles de tração e estabilidade, 4 airbags, controles-satélite do rádio, faróis com regulagem de altura e central multimídia são de série na versão 2.0 Intense. Bancos revestidos em couro são opcionais e custam R$ 1.500,00. Como estava, com todos os opcionais, o Captur que avaliamos tem preço sugerido no site de R$ 98.050,00.


Mas quando a gente analisa detalhes do carro a conta começa a ficar cara. Se há muitos itens de série, há deslizes na mesma medida:
- O ar condicionado é automático, mas não é digital. E tem o mesmo botão usado na linha Logan e Sandero, apesar de ter mais velocidades.
- A direção deveria ter assistência elétrica. O sistema eletro-hidráulico deixa o volante pesado para manobras.
- A coluna de direção tem ajuste somente de altura.
- Os vidros só abrem ou fecham com o carro ligado. Nem mesmo o primeiro estágio da ignição, quando apertamos o botão de partida sem pisar no freio, libera os vidros.
- Falando em botões, os do piloto automático e ECO ficam em posição incômoda e nada ergonômica, abaixo da alavanca do freio de mão.
- A chave-cartão já teve seus dias cool. É presencial, mas tem exatamente o mesmo design desde a linha Mégane.
- A central multimídia é muito fácil de operar, mas é exatamente a mesma usada no Kwid, ainda não espelha smartphones e fica difícil de enxergar em determinados ângulos, com a luz do sol entrando.
- O acabamento, como já dissemos, tem plástico demais e isso rouba o requinte que a cabine poderia ter. Nem o botão de partida tem acabamento melhor.
- Não sabemos se isso é característica do carro ou coisa isolada da unidade que testamos, mas o apoio de braço do motorista é muito inclinado para a frente, o que o inutiliza - o braço desliza o tempo todo.
- Os botões do volante não têm iluminação alguma, os quebrassóis não têm luzes de cortesia para os espelhos e o retrovisor não é eletrocrômico, ainda possuindo a arcaica lingueta.
- Apesar de possuir ABS com distribuição eletrônica de frenagens e controles de tração e estabilidade, os freios traseiros continuam sendo a tambor.
- O estepe é alojado embaixo da carroceria, com acesso difícil, se sujando o tempo todo e maior incidência de roubo.


COMPENSA?

Não, e não nos orgulhamos de dizer isso. O Captur tinha tudo para ser uma excelente cartada da Renault para enfrentar a concorrência, mas nesta versão ele definitivamente não vale quanto custa. Além dos tantos deslizes, o acabamento pobre, o desempenho fraco e o consumo ruim o tornam uma das piores opções do segmento. Honda HR-V Touring, Creta Prestige e Kicks SL são mais caros, mas apresentam equilíbrio entre o que custam, o que oferecem e quanto andam.


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