quinta-feira, 26 de novembro de 2009

CHERY TIGGO




A interrupção do teste do Effa M100 pela revista Quatro Rodas deu o que falar. Se antes faltava confiança em relação à qualidade dos automóveis chineses vendidos no Brasil, o veredicto desfavorável em relação à microvan ajudou a aumentar ainda mais as críticas e a rejeição aos produtos da potência comunista. Porém, algumas montadoras estão firmemente dispostas a mudar este quadro e mostrar que nem todo produto chinês só vale a pena se custar até “tlinta leal”. A Chery, especialmente, tenta sacudir o mercado dos SUVs pequenos com o jipinho Tiggo.


Não dá para esconder a dita desconfiança quando se entra na loja. O showroom da Av. dos Bandeirantes, na zona sul de São Paulo, é pequeno e mostra somente o jipe, em várias cores. Apesar dos banners nas paredes que mostram o Face e o A3, ou “New Name (nome fantasia dado ao hatch e sedã da marca até que o nome escolhido no concurso divulgado pelo site seja revelado), os próprios vendedores admitem não haver data certa para a chegada dos modelos. Porém, foram justamente a cordialidade e o tratamento irrepreensível dos vendedores, sinal de bom treinamento e respeito com o cliente, que amenizaram a má impressão inicial. Chery 1 X 0 Desconfiança.



Chery Tiggo - Interior

Muito cortês e disposto, o atendente logo me perguntou que tipo de revestimento eu preferia: couro ou tecido. Pedi para ver o interior em tecido e notei que a padronagem navalhada cinza e azul dos bancos não apresentava a qualidade que eu esperava, além de não ser muito bonita. Não gostei muito. Mas o incômodo inicial foi amenizado pela boa aparência dos materiais plásticos do painel e das portas, às vezes espumados e muito agradáveis ao toque. A ergonomia é bem resolvida e os botões e alavancas são leves – exceção aos botões do ar condicionado, de aspecto simples e acionamento um pouco duro. Nada que incomode, porém.


Os instrumentos têm fundo branco e iluminação azul de aparência requintada, mas, de forma geral, todo o layout do painel parece primar mais pela funcionalidade do que necessariamente pela aparência. Não cativa. Aliás, alguns encaixes na parte inferior do painel no lado do passageiro estavam muito mal feitos e notava-se o vão entre as peças (o modelo com revestimento em couro não apresentava esse defeito). Pelo menos as cores claras do interior ajudam a aumentar a sensação de espaço. Mas por causa da inconstância em relação à qualidade e aparência, o jogo acaba empatando: Chery 1 X 1 Desconfiança.

Chery Tiggo -Porta-malas

Fechando a porta, logo se nota o amplo espaço interno. Apesar do entreeixos curto (2,51 m), sobra espaço para motorista e passageiros. Na frente, os ajustes de distância, altura e reclinagem do banco do motorista, somados à regulagem de altura do volante, garantem boa posição de dirigir até para os mais altos, que podem também aproveitar o bom apoio para o pé esquerdo. Entre os bancos o bom apoio de braços também é porta-objetos com boa capacidade. E os que forem atrás encontrarão não somente espaço mais que suficiente, mas o conforto dos bancos reclináveis.


Quanto ao portamalas, a capacidade declarada de 520 litros parece coerente com as ótimas dimensões do compartimento, além de poder ser ampliada com o rebatimento parcial ou total dos bancos para até 1965 litros. Dá para fazer mudança com ele. Uma ótima sacada é o prolongamento da cobertura do portamalas, que se ajusta à inclinação dos bancos. 2 X 1 para a Chery.

Chery Tiggo

Uma coisa boa de se ver foi a qualidade de construção dos modelos ali expostos. Nenhum apresentava diferenças nos vãos entre as peças nem qualquer dificuldade para abrir ou fechar qualquer uma das portas, inclusive dos portamalas. Com o senão de abrir em direção à calçada (o que diminui a segurança), a tampa do portamalas tem um som bem mais abafado que a do EcoSport, por exemplo. E este som se repete nas 4 portas, parecendo com o de um carro mais luxuoso.


O capô do motor conta com amortecedores e uma lingüeta plástica que salta pela grade quando acionamos a alavanca interna de abertura, o que evita sujar as mãos. O próprio motor, aliás, apresenta aspecto limpo e organizado, com boa carenagem e todos os componentes devidamente encaixados. O atendente me explicou que a linha de montagem da Chery no Uruguai (o Tiggo chega da China em CKD) tem aumentado seu padrão de qualidade de montagem para atender aos mais diferentes gostos de consumidores do Mercosul, sabendo que compradores deste tipo de veículo já têm ótimas opções. Por isso, eles não podem relaxar. E com base no que vi, não há por que duvidar. Chery 3 X 1 Desconfiança.

Chery Tiggo -Motor

Fui convidado para um test-drive. O carro estava estacionado ao sol, um forno. Mérito para o ar condicionado, que refrescou o ambiente rapidinho. O bocal da chave, iluminado no mesmo tom do painel, é um diferencial à noite. Até então tudo bem, mas quando dei partida um ronco grave e alto invadiu a cabine, como se o revestimento acústico fosse escasso como o de um Logan. O percurso não seria longo e o trânsito estava um pouco carregado, mas mesmo sem acelerar muito o barulho do motor continuava vindo com vontade.


Não foi possível avaliar a contento o desempenho do motor Acteco 2.0 16v, mas acredito que 135 cv a 5.750 rpm e parcos 18,2 kgfm a 4.500 rpm não são suficientes para os 1.375 quilos do Tiggo. Para se ter uma idéia, o motor do Mitsubishi TR4, que tem a mesma potência com gasolina, entrega quase 2 kgfm a mais (com álcool, são 4 kg a mais), e ainda é ligeiramente mais leve (1.345 kg) mesmo com tração 4x4 e vários diferenciais. Na cidade ele pareceu ir bem, mas na estrada, com gente e bagagem, talvez ele se ressinta da falta de força. Aliás, é estranho (ou conclusivo) que ele tenha tanto espaço mas carregue, segundo a Chery, no máximo 375 quilos.


Pelo menos ele é econômico: segundo a Quatro Rodas, ele faz mais de 12 km/l na estrada e aceitáveis 8,5 km/l na cidade, sempre com gasolina (a Chery afirma que o motor flex está próximo). Mesmo assim, é de se supor que a autonomia de 701 km somente com o motorista seja bastante reduzida com carga total. O câmbio tem escalonamento estranho: às vezes macio, às vezes áspero e ruidoso, e com curso muito longo. A suspensão, independente nas 4 rodas e em conjunto com os bons pneus 235/60 R16, filtra muito bem todas as imperfeições do terreno. Mesmo assim, somente a suspensão não é suficiente para redimir as demais falhas e inconstâncias do Tiggo em relação à mecânica e ao desempenho. 3 a 2.

Chery Tiggo

Faltava avaliar o peso do Tiggo no bolso. A Chery vem trabalhando com garra para vencer esse jogo e oferece o Tiggo por R$ 49.900,00, tendo como único opcional o revestimento em couro por R$ 1.400,00 (que, aliás, deixa o interior muito mais bonito e aconchegante). A concessionária que visitei cobra R$ 1.000,00 de frete, e com isso chegamos ao preço máximo de R$ 52.300,00 por um carro que vem com ar condicionado, direção hidráulica (que, de tão leve nas manobras, parece elétrica), vidros elétricos nas 4 portas, travas elétricas e alarme com controle na chave-canivete, retrovisores elétricos, ABS com EBD, airbag duplo, CD player com MP3 e entrada USB, faróis com regulagem de altura, bancos e retrovisores externos com aquecimento, luzes de leitura dianteiras e traseiras, rodas em liga leve de 16 polegadas e estepe inteiramente funcional com cobertura plástica na cor do veículo e trava, faróis e lanternas de neblina e inúmeros porta-objetos.


Para se ter uma idéia, o Kia Soul mais barato custa R$ 1.300,00 a mais e vem com ar, direção elétrica, trio elétrico, CD player com MP3 e rodas aro 16. Vá lá, ele tem um design muito mais interessante em relação ao Tiggo e sua garantia é mais longa, mas não deixa de ser admirável que um carro custe o que o Tiggo custa e venha absolutamente completo. O esforço da Chery também se estende à garantia, de 3 anos, e considerando que o número de autorizadas tem crescido a cada dia, já somando 17, tudo indica que o investimento no Brasil é pra valer. A Chery ganha o jogo com placar de 4 a 2.

Depois de ver o carro e agindo como bom moço, daqueles que confiam nas pessoas, eu o compraria. Mas nem a Chery nem o Tiggo são pessoas; vale a pena confiar neles? Racionalmente, entendendo que no Brasil como em qualquer parte do mundo existem carros bons e carros ruins, eu diria que vale. Afinal, não custa sonhar com uma empresa chinesa que consiga adquirir o know-how e a qualidade das suas vizinhas coreanas.

20 comentários:

  1. Bom artigo. Deu informações que o usuário comum precisa, vindo de alguém que efetivamente teve as impressões que qualquer consumidor comum conseguiria indo até uma concessionária. Parabéns pelo texto.

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  2. Parabéns, muito esclarecedor irei fazer o test drive

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  3. seria interessante na proxima avaliar real o desempenho do motor!! para nao cair na suposiçao de que ele nao seja o suficiente para o carro!!

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  4. A revista Quatro Rodas já testou o Chery Tiggo. As conclusões a que ela chegou são as seguintes: "O utilitário (Tiggo) acelerou de 0 a 100 km/h em 12,1 segundos, enquanto o Hyundai Tucson 2.0 precisou de 14 segundos para fazer o mesmo, quando avaliado. O motor do Tiggo é um pouco lento, mas no teste ele foi ajudado pelo câmbio, bem escalonado." Não tenho equipamentos aferidos nem carros liberados para testes completos à minha disposição, e minhas opiniões são apenas baseadas nas impressões obtidas nos test-drives liberados pelas concessionárias. Acredito que a melhor forma de se obter informações mais precisas é testá-lo pessoalmente; talvez suas impressões sejam diferentes das minhas e, no final, são as que valerão para você. Um abraço!

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  5. A refeência ao Logan no ítem revestimento acustico é injusta e desnecessária, tendo em vista que nem se compara o nível de ruídos na cabine de um Logan e do Tiggo que é alto e excessivo, os acabamentos e a qualidade dos plásticos são péssimos, existe discordância nos encaixes de várias peças internas, pontos de ferrugem nos vãos das portas e discos de freio, o painel inferior do porta malas é de "eucatex", os logotipos são mal afixados, inclusive alguns são colocados "tortos" e como excessos de cola aparente, em síntese, é um carro bonito ao se olhar passar, mas nos faz pensar em muitas outras opções para se investir R$49 ou 50 e poucos mil reais.

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  6. Gostei bastante dos comentarios, justo, sucinto, direto. Vou até a concessionaria.

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  7. É necessário mais testes e Avaliações no Tiggo para que os futuros compradores tenham realmente uma visão real. Esta avaliação deve ser por especialistas.

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  8. Várias revistas especializadas já testaram o Tiggo, amigo. Basta você procurar na Internet. Não faz sentido continuar testando um carro que já foi avaliado várias vezes. Além do mais, este blog tem uma abordagem totalmente diferente das revistas especializadas. Os consumidores também merecem saber o que uma pessoa comum tem a dizer sobre o carro, não somente o que as publicações dizem.

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  9. Olha, tirando o fato de ser um carro chinês, que fatalmente é um preconceito de muita gente, o carro comparado com uma ecoesport por exemplo, tem acabamento melhor, mais motor, mais econômico,"muito mais opcionais de segurança" e ainda é em média R$ 3.000,00 mais barato. No início quando vieram as tucsons e sportages da vida, todo mundo torcia o nariz, hoje todos sabem que são carros muito bons..."vamos deixar o preconceito e o bairrismo de lado"...até parece um amigo meu que acha que carro bom é só vw.

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  10. ADOREI O CARRO, COMPREI UM, EXCELENTE SIMPLESMENTE MARAVILHOSO.
    BETO

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  11. Comprei o carro e fiz de cara uma viagem de aproximadamente 1500 km e o carro foi excelente consumo de 12 km/lt e excelentes ultrapassagens, não deve nada para tucson ou ecosport ou crv. É um excelente carro.
    muito satisfeito

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  12. Também estou na pretensão de comprar um Tiggo, fui à concessionária na Barra-RJ e além de muito bonito, o que mais me surpreendeu foi o espaço interno. Eu tenho 1,83m e minha esposa sentada no banco do motorista e eu atrás dela (que tem 1,79m e precisa usar o banco no Clio bem atrás) eu até podia esticar as pernas, superior ao Kia Sportage de minha irmã, que fiquei com o joelho batendo no banco dianteiro. Acho que a maior preocupação na compra é o fato de que a Cherry possui baixo estoque de peças, portanto no caso de uma substituição haveria uma demora grande na reposição. No resto, o carro me pareceu excelente para o preço.

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  13. sou um cliente com 101% de satisfação. meu tiggo é 2010 e ja rodou 69mil km nunca tive dor de cabeça o carro é realmente economico confortavel e forte ... eu recomendo

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  14. Eu comprei um 2011 e estou gostando muito, o carro é o melhor custoXbenefício da industria automotiva, aliás por falar em China.. o que não é feito por lá ? todas as grandes marcas tem um relação com eles, portanto é só esperar e ver a consolidação da marca no Brasil.
    Tenho dito .`.

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  15. Procurei na internet testes, comparativos e opiniões sobre o Tiggo e, a maioria, eram muito técnicos (pois elaborados por especialistas do ramo), o que não atendeu às minhas necessidades. Gostaria de lhe parabenizar pelo trabalho que muito me ajudou, como consumidor comum, a avaliar e decidir por "aceitar o risco do novo" e comprar um carro chinês.

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  16. Muito obrigado. Opiniões como a sua nos estimulam a continuar com este trabalho, de informar da forma mais esclarecedora possível e imparcialmente, sempre sob o ponto de vista do consumidor. Um abraço!

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  17. Estou namorando um tiggo. acho que vou amanhã fechar negócio. todos os carros citados nesta matéria já fiz test drive e não deu aquela vontade de comprar. no sábado vi o tiggo, gostei do que vi e do preço, não fiz o test drive porque era véspera de natal e estava fechado o estacionamento da concessionária. sou muito conservador com carro, para se ter uma idéia tenho um meriva 2002/2003 que comprei zero.... obrigado pela matéria tão completa.

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  18. Eu fui visitar uma concessionária Chery e gostei muito do Tiggo. Fiquei muito impressionado e como é um automóvel alto é ideal para mim, moro em Monte Verde.
    Gostei muito da sua avaliação, parabéns e concordo com tudo o que você escreveu.
    Tomara que eu consiga comprar um.
    Luiz A. Peixoto

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  19. Quem entende, olhou para o motor e disse-me que era Motor de Mitsubishi Pajero TR4. Se existe uma diferença de desempenho, deve ser pelos eletrônicos do motor.

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  20. "a",

    Com todo o respeito, quem lhe disse que o motor do Chery Tiggo é o mesmo do Mitsubishi Pajero TR4 deve entender de mecânica tanto quanto eu entendo de física nuclear. Tomo a liberdade de postar 2 links com fotos de ambos os motores para que você mesmo veja e compare.

    Pajero - http://pitstopbrasil.files.wordpress.com/2009/09/pajero-tr4-2010-10.jpg

    Tiggo - http://www.blogdorogerio.com.br/wp-content/uploads/2010/01/chery-tiggo-motor-racionauto.jpg

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